Adam Smith, há dois séculos e meio, ofereceu alternativa
Por: Alex Corsini – Sucursal da União Europeia
Varsóvia – Talvez não existisse analista mais indicado dos problemas que enfrenta a economia mundial do que Gordon Brown. Como primeiro-ministro da Grã-Bretanha e presidente do G20, grupo que reúne as 20 mais fortes economias do planeta, tinha papel principal no esforço para superação da maior crise econômica do período após a Segunda Guerra Mundial.
O livro Além do crash: Superando a primeira crise da globalização descreve os momentos de derrocada do sistema financeiro mundial e as reações das lideranças políticas. Aponta as dolorosas consequências sociais que teria o fracasso dos esforços de salvação em uma economia internacional globalizada, assim como a importância da crescente coordenação para a consecução de soluções eficazes.
Por intermédio de crítica severa do modelo econômico neoliberal e da insaciabilidade que caracteriza o funcionamento do sistema bancário, sublinha uma verdade que, primeiramente, conformou há dois séculos e meio Adam Smith: se a economia não serve aos valores morais, funciona em detrimento da totalidade social.
O motivo básico da crise mundial encontra-se nos gigantescos desequilíbrios das balanças comerciais que predominaram na última década levando a correspondentes gigantescas movimentações de capitais. Países pobres e, principalmente, a China financiavam países ricos como os EUA. Esta evolução refletia o fato de que as economias emergentes registravam grandes superávits comerciais, enquanto os países desenvolvidos acumulavam crescentes déficits.
Os desequilíbrios levaram os capitais a movimentar-se "em direção equivocada", dos países pobres aos países ricos, desestabilizando o sistema financeiro e provocando a crise econômica.
A poupança superavitária levou a redução as taxas de juros e encorajou a busca de desempenhos mais elevados para os investimentos. A liberação incontrolável do sistema financeiro mundial permitiu aos bancos financiarem investimentos de risco e inventarem duvidosos produtos novos, derramando a crise no mundo inteiro.
Os países mais pobres financiaram um superconsumo aos países desenvolvidos, resultando em bolhas, particularmente no setor habitacional e no risco de derrocada dos bancos.
Soluções mundiais
O superendividamento e o superconsumo conformaram um modelo novo, o "capitalismo sem capitais". Investidores e consumidores nos países desenvolvidos realizavam gastos sem recursos suficientes e os bancos emprestavam sem capitais suficientes.
O esforço para evitar a derrocada do sistema financeiro exigiu o fortalecimento da base de capital dos bancos. Havia duas perspectivas: a neoliberal do presidente Bush Jr., limitada na substituição dos produtos "tóxicos" que dispunham os bancos e a imediata capitalização com prematura estatização dos bancos superendividados, e paralela adoção de regulamentações e controles mais severos, conforme sugeriu o Brown.
A prevalência da segunda perspectiva garantiu a salvação da economia mundial. Conforme ficou claro com a derrocada do Lehman Brothers, quebras de bancos poderiam desestabilizar o sistema.
Gordon Brown, como presidente do G20, coordenou a adoção de política fiscal expansiva, com aumento de gastos e redução de impostos, a fim de serem evitados o agravamento da queda e o aumento do desemprego. A coordenação das políticas frutificou. A crise não terminou, mas teve duração menor do que se esperava.
Mensagem central do livro é a necessidade de continuação do apoio fiscal da demanda pelos países que não enfrentam problema de dívida e a promoção de mudanças corretivas para o fortalecimento da competitividade e a passagem para a economia do conhecimento. Premissa de sucesso é a crescente coordenação internacional e a cooperação. Os problemas mundiais exigem soluções mundiais.
Mas, principalmente, a mensagem é moral. Uma boa economia é aquela em que o bem-estar é distribuído a todos e não somente àqueles já bem situados, e uma boa sociedade é aquela em que a sorte favorece mais do que os poucos com sorte.