Fonte: Financial Times
Jonathan Wheatley – São Paulo
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Em um dos últimos comícios de campanha antes das eleições, realizado em Porto Alegre, cidade natal de Dilma Rousseff, na última sexta-feira (24/9), mais de 35 mil pessoas aguardavam para ver o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua sucessora Dilma.
[[Mas quando Dilma finalmente sobe ao palco diante da multidão patriótica, ela recebe uma recepção surpreendentemente fria. Ela recebe aplausos pelos comentários a respeito dos US$ 67 bilhões obtidos com a oferta de ações da Petrobras, a companhia estatal de petróleo, anunciados oficialmente naquela manhã, que ela comparou aos US$ 4 bilhões em vendas de ações da Petrobras pelo governo centrista anterior, em 2000. “Nós vendemos alguma parte da Petrobras para conseguir (os US$ 67 bi)? Não! Nós compramos de volta o que vendemos, para o Brasil, para o povo brasileiro!” É apenas quando ela passa o microfone para o presidente Lula é que a multidão se agita. Ele precisa esperar para que os gritos de “Lula! Lula!” passem para que possa falar. Parece estranho que, diante do público de sua própria cidade, apenas nove dias antes do que as pesquisas eleitorais dizem que será uma vitória esmagadora, Rousseff fique em segundo plano para Lula e tão à sombra dele.
Mas isso, juntamente com seus comentários a respeito da Petrobras, dizem muito a respeito de seu estilo pessoal e a respeito de que tipo de governo ela comandaria –se as pesquisas estiverem certas– a partir de 1º de janeiro do próximo ano.
“Sob Lula, o principal papel da presidência tem sido a comunicação”, diz Alberto Almeida, um cientista político em São Paulo. “Minha visão é de que Dilma a conduzirá mais como um gerador de políticas públicas. Mas uma coisa que apenas o presidente pode fazer é a comunicação –o restante é preciso delegar.”
Lula, de fato, provou ser um comunicador consumado e delegador –frequentemente para Rousseff. Ele pode buscar um papel internacional no G20 ou em outra entidade internacional, mas deverá permanecer ativo na política brasileira.
Ela pode carecer da habilidade de comunicação de seu padrinho, mas poucos duvidam de sua dedicação às políticas. Durante quase oito anos ocupando um lugar importante no governo Lula, seu papel foi mais o de uma administradora com a mão na massa. Ela supervisionou o principal programa de investimento em infraestrutura do governo e outros para fornecer moradias baratas e eletricidade para os pobres. Ela também foi a mentora da legislação que atualmente tramita no Congresso, que daria ao Estado um papel muito maior na indústria brasileira do petróleo em rápido crescimento.
Filha de imigrantes búlgaros prósperos, ele ingressou na resistência armada à ditadura militar do Brasil e foi presa e torturada. Mais recentemente ela foi diagnosticada com linfoma, do qual foi declarada curada ao despontar como sucessora preferida de Lula. Muitos duvidam que ela tenha a habilidade política que permitiu a Lula, por exemplo, manter um ex-membro da oposição centrista como presidente do Banco Central, apesar da oposição feroz de seu próprio partido. Os críticos também suspeitam que Rousseff gostaria de ver um maior papel do Estado na economia.
De fato, seus comentários a respeito da oferta de ações da Petrobras deixam explícito o que antes era apenas insinuado: a operação visava em parte aumentar o controle público da empresa. Guido Mantega, o ministro da Fazenda, disse que a participação do governo e de outras entidades públicas no capital da Petrobras cresceu para 48% após a oferta, em comparação a 40% antes. (O governo conta com a maioria das ações com direito a voto.)
Mas seus assessores insistem que o petróleo é um caso especial e isolado. Um alto assessor econômico assegurou ao “Financial Times” que não haveria mudança nos pilares centrais da estabilidade macroeconômica do Brasil: meta de inflação, câmbio flutuante e reduções graduais da dívida pública.
Se a dívida pública realmente está caindo é algo discutível. Segundo a definição estreita do governo de dívida líquida, a tendência tem sido de queda durante todo o governo Lula. Mas a dívida bruta recentemente se encontra em tendência de alta.
Este tipo de ambiguidade tem gerado dúvidas a respeito de que direção seguiria um governo Dilma Rousseff. Ela insiste que não haveria mudanças em políticas que proporcionaram um crescimento econômico de 7% neste ano e provavelmente manteriam a economia expandindo, no que muitos economistas veem como uma taxa potencial, não inflacionária, de cerca de 4,5%. Muitas dessas políticas foram herdadas da oposição por Lula, em 2002. Apesar de tê-las mantido, ele acabou com o programa de reforma liberal do governo anterior.
Dilma parece menos provável do que Lula de retomar essas reformas. No máximo, dizem assessores, haverá um ajuste das macropolíticas. Fora isso, continuidade é a palavra.]]